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::: O RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS E O ABISMO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

 

     No momento em que sentamos para escrever esse texto a esperança de tempos melhores e mais dignos para a educação nos enchia a mente e o espírito, mas a realidade é mais temerária do que jamais poderíamos supor.

 

     Neste exato momento em que escrevemos, 224. 504 brasileiras e brasileiros, sendo a maioria esmagadora de trabalhadoras e trabalhadores, perderam suas vidas para o vírus COVID-19. Vivemos o pior momento da pandemia iniciada no final de 2019, intensificada em 2020 e agravada em 2021. Na semana anterior à esse escrito, o Brasil bateu dois tristes recordes, em um dia, perdemos 1.400 almas e dois dias depois, mais 1.600 vidas se foram.

 

     No olho desse furacão, não bastando as dores, as perdas de amores, de filhos, pais, mães e amigos, a grave crise humanitária, que não é mais apenas econômica, que assola o Brasil, nós trabalhadoras e trabalhadores sequer temos o direito ao luto. Sequer temos o direito a cuidar de nossa saúde mental e de preservar nossas vidas, porque o capital, o mercado financeiro, ou a “economia” como popularmente chamam, não pode parar de sugar nossas vidas, agora, infelizmente, literalmente.

 

    Vimos nesse período diversas falas e discursos de líderes políticos, nada preocupados com seu povo, alegar o falso antagonismo entre salvar a economia e salvar vidas. Que tempos são estes em que ousamos pensar e discutir se devemos ou não salvar vidas? Que tempos são estes em que tememos muito mais o desemprego, a fome e a miséria do que um vírus que já dizimou 2.230.829 (dois milhões, duzentos e trinta mil oitocentos e vinte e nove vidas ceifadas)?

 

     São tempos de desesperança, em larga medida, para a classe trabalhadora. São tempos de reinventar, de descobrir o “novo normal”, para as elites e a burguesia.

 

     Enquanto lutamos em defesa de nossas vidas, para garantir o alimento na mesa e uma vida ainda que minimamente digna, a burguesia e a elite brasileira lotam bares, boates, restaurantes de luxo, festas clandestinas, festas em iates, entre outras formas de festejar que estão sendo criadas com o “novo normal”.

 

     O que será que há tanto para festejar?

     Para nós professoras e professores, da rede privada, das redes municipal e estadual, não há o que comemorar, mas sim o que temer.

 

    Nesta semana recebemos a convocação para a reabertura das escolas e o retorno às aulas presenciais. No pico da fase mais crítica da pandemia no Brasil, com a descoberta quase que diária de novas variantes ou cepas circulando exclusivamente no país, com a burguesia se aglomerando diariamente em festas, sob a justificativa de que é preciso descansar a mente para enfrentar tempos difíceis, nosso maior medo é que nossos corpos explorados pelo capital tenham que descansar em paz, porque não resistiram à doença.

 

     Recebemos uma avalanche de especialistas em pediatria, em infectologia, psicólogos e psiquiatras defendendo a reabertura das escolas, para garantir a saúde mental de jovens e crianças. Quando foi que ouvimos professoras e professores sobre esse assunto? Quando foi que ouvimos as trabalhadoras e os trabalhadores da limpeza das escolas sobre se elas estão efetivamente preparadas com condições de higiene adequadas para evitar a contaminação?

 

     Não fomos ouvidos. Fomos silenciados, como se não fizéssemos parte da comunidade escolar. Como se não tivéssemos que usar o transporte público abarrotado e apontado como o principal local de disseminação de contágio, depois das festas. Como se não trabalhássemos em duas, três escolas, sem infraestrutura, sem água, sem papel para secar as mãos, sem o quase milagroso álcool em gel e, principalmente, sem a presença daqueles que negam a pandemia, que negam o uso de máscaras, que negam o distanciamento social, que colocam todas e todos em grande risco de morte.

 

     É nesse cenário desolador que seguimos rumo ao abismo da reabertura das escolas. É com medo, é silenciados, é censurados, é chamados de vagabundos que seguimos esse triste caminho em direção ao abismo que está posto em defesa do capital.

 

* Texto produzido por professora de uma escola em Guarulhos.

 

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