NOTA DO SINPRO GUARULHOS SOBRE A RETOMADA DAS AULAS PRESENCIAIS
MAIS DO QUE NUNCA PRECISAMOS AFIRMAR: ESSENCIAL É A VIDA!

 

     Nas duas últimas semanas a pandemia atingiu seu pior momento em número de contágios e mortes. São quase 4000 mortos por dia, mais de 1000 apenas no estado de São Paulo. Esses dados deveriam ser suficientes para que os governos não titubeassem em tomar medidas sérias para reduzir os danos diante da grave crise sanitária que vivemos, mas não é isso que estamos vendo. Tampouco, o colapso no sistema de saúde, o colapso no sistema funerário, fazendo inclusive com que vans escolares sejam recrutadas pelo município de São Paulo para transportar corpos (!), o esgotamento de produtos e medicamentos indispensáveis ao tratamento da covid-19, o drama econômico e social que muitas pessoas, sobretudo os pobres, estão enfrentando, têm sido suficientes para que medidas efetivas de proteção e contenção da pandemia sejam tomadas.

 

    Hoje sabemos que o negacionismo, cujo principal porta-voz foi e continua sendo Jair Bolsonaro, tem revelado seus efeitos nefastos sobre a população que aderiu ao chamado tratamento precoce ou a tratamentos sem comprovação científica, levando muitos a disputarem uma vaga de UTI por conta de complicações derivadas do consumo destes medicamentos.

 

      Este mesmo negacionismo levou governos estaduais e municipais a decidirem por uma reabertura precoce e irresponsável de atividades que provocaram aumento da circulação de pessoas e aglomerações, como aconteceu com as escolas. No caso das escolas particulares, em apenas dois meses de retomada das atividades presenciais foi possível constatar como a decisão pela reabertura contribuiu para elevação do número de adoecimentos e mortes. É certo que não se trata de responsabilizar exclusivamente a reabertura das escolas pelo atual estágio da pandemia, mas trata-se de reconhecer que também as escolas contribuíram para a evolução do número de casos e trata-se, por isso, de afirmar a necessidade de um diálogo amplo e franco que não manipule os dados de nossa tragédia sanitária em favor de argumentos de ocasião.


      Não podemos aceitar que a defesa da escola se faça com a desmoralização de professores, através de levianas manifestações que fazem supor que professores não querem retornar ao trabalho, que nunca abandonaram. Ao contrário: aqueles que hoje consideram as preocupações que os docentes vêm apresentando ao longo da pandemia como busca ou manutenção de algum privilégio em relação a outros trabalhadores, ignoram o esforço e o empenho de docentes durante todo período de suspensão das aulas presenciais, inclusive com evidente intensificação do trabalho.


      Protocolos sanitários demonstraram-se insuficientes diante da complexidade da escola e das múltiplas relações que abriga, eles não podem estar descolados de questões pedagógicas específicas deste momento, assim como não podem desconsiderar a objetividade das condições de trabalho a que estão submetidos os docentes. Sim, nós sabemos que esse debate é difícil e estamos dispostos a fazê-lo. Consideramos, contudo, que não dá mais para tomar medidas precipitadas e irresponsáveis que colocam a saúde e a vida da comunidade escolar em risco. Não é possível reabrir a escola primeiro e debater depois.

 

      É importante que as famílias de estudantes das escolas particulares saibam do compromisso que nos move ao afirmarmos que não será possível reabrir as escolas, como aconteceu no início deste ano. Professores e professoras sempre consideraram a educação um direito essencial, mas não podemos endossar oportunismos que, sem apresentar medidas e condições efetivas, decidem por decreto que educação é atividade ou serviço essencial. A manobra do governador João Dória atende às chantagens de empresários da educação, ao mesmo tempo em que esconde o governo do estado de São Paulo atrás de recursos tão legais quanto autoritários, que fazem coro com o negacionismo de Jair Bolsonaro ao minimizar o potencial perigo a que toda comunidade escolar estará exposta caso haja uma flexibilização inconsequente. Tal medida apenas dificulta o debate franco e comprometido entre os muitos atores que conhecem a escola como ambiente educativo - em suas múltiplas faces - e reconhecem as dificuldades e complexidades deste momento.


      A retomada das aulas presenciais não pode ser decidida sob pressão de interesses econômicos dos donos de escolas, tampouco sob pressão de mães, principalmente do movimento denominado “Escolas Abertas” que ocasionalmente reivindicam a reabertura das escolas e fundamentam sua reivindicação na opinião de mantenedores, do poder público, de médicos e de juristas, mas ignoram acintosamente o que dizem professores e professoras, profissionais sem os quais escola nenhuma pode reabrir e educação nenhuma pode se realizar.


     Não há saída individual para a pandemia que estamos enfrentando e não bastam, como mantenedores e outros representantes da sociedade têm apontado, protocolos genéricos para a retomada das aulas presenciais. É necessário o debate sobre a significativa presença de famílias negacionistas, de mantenedores negacionistas, que sequer fornecem os equipamentos mínimos necessários para a proteção de professores e funcionários e ainda assim garantem ter condições sanitárias seguras. Não adianta ter protocolo se não há o convencimento e comprometimento de toda a comunidade escolar em cuidar da vida!
 

     Consideramos fundamental que todos professores e professoras, assim como todos os trabalhadores da educação sejam vacinados antes da retomada das aulas presenciais, porém reabrir escolas vacinando apenas os maiores de 47 anos é apostar na tragédia, além de demonstrar desconhecimento da realidade das escolas privadas. A vacinação para maiores de 47 anos alcançará qual porcentagem de docentes que hoje leciona em escolas privadas? Além disso, a exigência de apresentação dos últimos holerites exclui professores e professoras informais.


        Portanto, consideramos imprescindível a vacinação para todos e todas, independentemente da idade e do regime de contratação. Do contrário estaremos diante de mais uma performance midiática do governador do estado de São Paulo, com poucos efeitos concretos no controle da situação sanitária gravíssima que enfrentamos. A ameaça de retomada das atividades presenciais a partir do dia 05 de abril, que parte dos mantenedores está fazendo, é intolerável, insensível e absolutamente irresponsável diante do agravamento da pandemia e das muitas vidas perdidas diariamente, inclusive de crianças e jovens. Há decretos municipais que impedem a retomada das aulas presenciais, há uma sentença que impede a convocação de professores e professoras das redes pública estadual e privada para o trabalho presencial, desrespeitar tais determinações é estar na contramão dos esforços para contenção da pandemia. Não é possível admitir decisões arbitrárias e ilegais neste momento.


      Por tudo isso, reafirmamos a urgência de que todos e todas que defendem a educação como direito essencial, defendam antes a saúde e a vida. Como condição fundamental para seguirmos. Como compromisso inadiável com o futuro. Como respeito à humanidade. Essencial é a vida!


✊🏾 Sindicato é pra Lutar!


Sindicato dos Professores e Professoras de Guarulhos

Sinpro Guarulhos

01 de abril de 2021