CARTA DAS PROFESSORAS E PROFESSORES  DA REDE PRIVADA DE GUARULHOS:
CONTRA A REABERTURA DAS ESCOLAS E PELA VIDA

 

      Na última assembleia virtual organizada pelo Sinpro Guarulhos, professoras e professores decidiram manifestar publicamente sua posição em relação à reabertura das escolas e, com isso, externar para a sociedade tanto seu compromisso quanto suas preocupações. 

      É importante, antes de tudo, afirmar que a indiferença não está na bagagem de professores e professoras e, por isso, não podemos compactuar com a tentativa de banalizar a gravidade da COVID-19 que há meses se expressa em estarrecedor número de mortes. Também não somos indiferentes aos impactos pedagógicos decorrentes da pandemia, eles são muitos e complexos, mas não podemos ignorar que condições fundamentais para reabertura das escolas não existem até o momento.

      Inúmeras autoridades sanitárias, com base em pesquisas científicas e acompanhamento da pandemia no Brasil, alertam em relação aos riscos que a reabertura das escolas, nas atuais condições, representa: elevação do número de infectados e aumento da proporção de contágios são apenas algumas. 

      Professoras e professores da rede privada encararam os dilemas impostos pela pandemia desde a interrupção das aulas: abriram suas casas, convertendo os espaços possíveis em salas de aula, emprestaram equipamentos e infraestrutura para o funcionamento remoto das escolas, alongaram e intensificaram a jornada de trabalho, além de precisarem se adaptar rapidamente às novas linguagens tecnológicas. Esse processo contínuo e bastante heterogêneo, visto que professores de diferentes níveis de ensino enfrentaram diferentes dificuldades, expressa o compromisso com os processos educacionais e com a superação do grave momento que ora enfrentamos. 

      De outro lado, muitas escolas particulares, reivindicando para si a crise econômica decorrente da pandemia, anteciparam férias, reduziram salários – quase sempre sem igual redução de jornada – suspenderam contratos e agora anunciam a pretensão de não pagar o abono (PLR) previsto para até o 15º dia de outubro e de antecipar também parte dos dias do recesso escolar. Em outras palavras: a contrapartida ao compromisso dos docentes tem sido a retirada de direitos. 

      Para levar a cabo o propósito de reabertura das escolas, o sindicato patronal – SIEEESP está tentando por todos os meios – do ingresso na justiça para obter uma liminar, já negada, ao chamado de um ato presencial na Av. Paulista ocorrido no domingo dia 30 de agosto, os donos de escolas têm apostado na ambiguidade das decisões que envolvem estado e municípios para pressionar pela retomada das aulas presenciais. Contudo, não nos parece coincidência que esta pressão ocorra justamente no momento de renovação das matrículas. Assim como não nos parece ocasional o envio de uma carta – cheia de bajulação – ao Presidente da República, apelando pela reabertura das escolas e por socorro ao setor, logo ao presidente que fundamenta suas ações e comportamentos em bases negacionistas que têm servido de desorientação para o enfrentamento responsável e urgente da pandemia. 

      Portanto, nos dirigimos aos estudantes e às suas famílias, assim como à toda sociedade, para reafirmar nosso compromisso com os estudantes e com a educação. Reafirmamos também que formas remotas de ensino só devem ser adotas em momento de exceção, como os que estamos vivendo, elas não substituem o complexo de relações que se dá na escola, tampouco o contato de professores e alunos no partilhar de conhecimentos e de questionamentos sedimentados no convívio diário; mas, em defesa da vida e da saúde de todos os envolvidos com a comunidade escolar, defendemos: a continuidade das aulas remotas até quando as condições sanitárias não sejam tão ameaçadoras quanto às dos dias atuais. 

      Estamos com aqueles que defendem o direito à vida como premissa incontestável para superação desta crise e, por isso, diante da ameaça concreta que a reabertura das escolas representa, não descartamos a possibilidade de uma greve sanitária, caso os donos de escolas insistam irresponsavelmente na retomada de atividades presenciais. A greve sanitária não interrompe o trabalho remoto e pode ser um instrumento de luta em defesa da saúde, da educação e pela vida. 


Retomada com responsabilidade e segurança em 2021.
Nenhum a menos!


✊🏿 Sindicato é pra lutar!

Setembro/2020

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